De cara
Nelson Freitas
Ele é um dos melhores humoristas da atualidade no Brasil. Nesta entrevista Nelson Freitas fala sobre sucesso, humor, mudanças, Chico Anysio e a dificuldade de fazer teatro no país. No final ele ainda deixa um recadinho para os Criciumenses.
- Circulando: Nelsinho, algum parentesco com a família Freitas de Criciúma? Porque chegar ao aeroporto daqui com esse sobrenome na placa não é para qualquer um. Criciúma virou rotina nos últimos tempos, o que te traz tanto para cá?
- Nelson Freitas: Tenho um carinho enorme com os Freitas de Criciúma, desde a primeira vez que fui pra um evento do Dani Freitas e fui recebido com honras e glorias (Marcias, Claudias, Fernandas... só pra ter gancho). De lá pra cá, virei fã da cidade e já voltei várias vezes para trabalhar com o show “Nelson Freitas e Vocês” que não por acaso voltarei ainda esse ano para fazer no teatro de novo, “ESPEEEEERA!!!” Mas me considero afetivamente da família, e a gente se diverte com isso. Eu ligo para o Hilário e digo: “E aí vô?” E ele responde: “ Fala meu neto!” É um querido.
- Circulando: Você trabalha numa “Zorra”, com o sucesso sua vida virou também algo muito engraçado/bagunçado ou o Nelson Freitas sério entra em campo?
- Nelson Freitas: Sempre fui o palhaço das turmas por onde passei. Fui do Colégio Militar, depois para Marinha Mercante, fiz Análise de Sistemas na PUC do Rio e em 85 resolvi capitalizar as mesas de botecos que eu vivia animando. Fiz um curso de teatro e lá se vão 22 anos na labuta de uma profissão que eu considero das mais difíceis, não pelo oficio em si, que é a parte divertida, mas o mercado competitivo, a fogueira de vaidades, o marketing pessoal, o “vale quanto pesa”, a ciranda da instabilidade emocional e financeira. Não é para qualquer um. Tem que gostar muito de se exibir, se expor, se desdobrar em outros e ter um estômago do tamanho de um brejo para engolir um bocado de sapo. E mesmo assim, ter a força, a dignidade de quando abrir a boca, emocionar, divertir e entreter platéias, pois essas sim, é que vão definir o seu verdadeiro valor como artista nesse país tão rico em arte e cultura, mas que tão pouco as valoriza.
- Circulando: Na peça “Nelson Freitas e Vocês”, que apresentas no Rio, a direção é responsabilidade de Chico Anysio. Como é ser dirigido e trabalhar com esse ícone do humor nacional? E, em sua opinião, por que ele não tem um espaço na emissora Global?
- Nelson Freitas: O Chico foi um presente da vida, cada minuto ao lado dele são valorosas lições. O show já existia, mas a carpintaria que ele me brindou fez com que tomasse uma elegância, que me honra a cada apresentação. Foram toques e sugestões que não cabe apenas no show, mas em toda a minha vida. É uma pena que a televisão esteja aproveitando tão pouco de um artista que tanto contribuiu para o humor nacional durante gerações.
- Circulando: Cantar também é uma de suas paixões, pensas em dar atenção para essa área? Quem sabe até gravar mais um CD?
- Nelson Freitas: Minhas ambições como cantor ficaram restritas aos musicais que fiz, e não foram poucos. O mercado da música atravessa um dos piores momentos desde a invenção da “bolacha”, que era de cera de carnaúba e em 78 rotações. As gravadoras deixaram de gravar há anos, e a distribuição sujeita a incontrolável pirataria. Vai ser preciso um longo caminho para organizar as novas mídias e o avanço tecnológico. Para mim é uma farra poder cantar nos meus shows, e acredito que com o tempo as pessoas, quando venham me ver, já saibam que em um momento ou outro vou atacar com uma cantoria. Seja uma sacanagem ou algum clássico a guisa de entretenimento.
- Circulando: Entre os vários personagens mostrados nos seis anos que atuas no programa Zorra Total, qual deles você gosta mais de fazer e qual o público mais simpatizou?
- Nelson Freitas: Dos quadros que fiz no Zorra definitivamente o que alcançou maiores índices foi o “Marcia e Leozinho”, nas palavras do Sherman um dos quadros mais acertados do programa desde que começou há quase dez anos. Era muito divertido fazê-lo e minha parceira, Maria Clara Gueiros, é um show. Com ela qualquer texto fica engraçado. Mas o personagem que tenho maior carinho é o “Carretel”, aquele paraíba que fala enrolado. Foi uma criação minha e tenho orgulho danado.
- Circulando: Antes de trabalhar com o humor seus trabalhos foram novelas e até um filme, pensas em voltar a fazer algo nesta linha? Já que o teu bom desempenho no humorístico vem chamando atenção dos escritores...
- Nelson Freitas: Este ano tive o prazer de fazer dois filmes com personagens bem distintos. Em “O Casamento Brasileiro”, com direção de Fauzi Mansur, fiz um casamenteiro do interior lúdico e divertido. Ele faz um par com Nívea Stelman em uma comédia romântica muito agradável (fotos e assunto no meu blog no Bloglog da Globo.com ou no site www.nelsonfreitas.com.br). E o outro meio psicopata no surpreendente “Espiral”, do diretor Paulo Pons (www.paxfilmes.com.br), numa produção de baixíssimo orçamento, mas de altíssimo nível. Vale conferir no lançamento.
- Circulando: O humor brasileiro vem sofrendo grande influência do americano com o crescimento do gênero Stand-Up Comedy. O estilo veio para ficar? O segredo de um bom humorista é rir das desgraças da vida?
- Nelson Freitas: Eu penso que o humor no Brasil sofreu transformações importantes com adventos como internet e TV a cabo. Os produtos americanos em geral, e muita coisa que vemos pelo mundo, nos trouxe mais refino. Nos anos de ditadura, enquanto a porrada comia nos corredores do DOI, podia-se de tudo: sexo, drogas e rock and roll. Só não podia falar mal do governo. A MPB teve que rebolar para falar nas entrelinhas. O pessoal do Pasquim vivia na corda bamba, mas nos shows de humor, os primórdios do stand-up comedy brasileiro, não se furtava de escatologias e palavrões divertidamente aceitos para os padrões da moralidade Tijucana. O que antigamente era engraçado, como a profusa flatulência das velhinhas do Costinha, hoje já não arrancam tantas gargalhadas. O humor hoje tem espaço de honra em peças publicitárias, eventos corporativos, casas de espetáculos e na própria grade da TV. “Tô” achando fantástico.
- Circulando: Para finalizar...
- Nelson Freitas: Reitero meu carinho por Criciúma. Espero ver o Tigre na primeirona e poder voltar muitas, e muitas vezes mais, pois a gente é feliz onde a gente é bem tratado. Um abraço grande a todos e até daqui a pouco.