De cara
Zé da Silva
Um Zé criciumense na Globo. Desenhos e letrinhas são com ele. Confira na íntegra a entrevista exclusiva ao Circulando...
- Circulando: Um Zé de Criciúma na Globo... Como foi o início de tudo isso?
- Zé da Silva: Desde que minha mãe me ensinou a ler, aos cinco anos, comecei a produzir histórias em quadrinhos e a editar revistas em cadernos escolares. Costumo dizer que faço a mesma coisa desde sempre: desenhar e escrever. A diferença é que agora sou pago para isso. Sobre a ida para a Globo, isso aconteceu em 2000, através de uma oficina que selecionava novos roteiristas. Na época, eu já fazia charges no “Diário Catarinense” há dois anos. A Globo recebeu 1600 inscrições e foi peneirando, peneirando, até contratar doze pessoas. Nesses nove anos lá, criei textos principalmente para programas de humor (“Sai de Baixo”, “Casos & Acasos”, “Sob Nova Direção”, “Casseta & Planeta”), mas também estive em programas infantis e no “Linha Direta”, onde ocupei a função de redator-final. Hoje, escrevo para o seriado “Aline”, que deve ir ao ar em julho.
- Circulando: A paixão pelo futebol vem de onde e de quem?
- Zé da Silva: Tudo começou na Copa de 82, quando eu tinha 8 anos. Guardo até hoje a primeira revista “Placar” que meu pai comprou pra mim. Ali que começou essa “tara” por futebol.
- Circulando: Tem mais um livro no forno. O Almanaque do futebol vai contar o que?
- Zé da Silva: Será um panorama do futebol em Santa Catarina, com informações e curiosidades. Estou escrevendo em parceria com o jornalista Emerson Gasperin e com o apoio do Fundesporte do Governo do Estado. Há pesquisadores colaborando em várias regiões de SC – aí no Sul, quem tem nos ajudado nesse trabalho é o jornalista Emerson Teixeira. O livro deve sair até abril, no máximo, e pretendemos lançá-lo em Criciúma, também.
- Circulando: Um chargista tem quer fazer um resumo da síntese em sua leitura. Qual o tema ou temas, mais saborosos de se brincar?
- Zé da Silva: Futebol é o que sempre rende mais polêmica e e-mails de leitores. Às vezes dói fazer uma charge ridicularizando o Criciúma, meu time de coração, mas sou obrigado a repercutir a notícia, sempre de forma humorada.
- Circulando: Afinal, é difícil o começo de uma carreira como chargista? E qual o conselho que você dá?
- Zé da Silva: Desenhar é apenas parte do processo. Acho que minha formação em jornalismo, na UFSC, ajudou a completar minha visão de chargista. Sou viciado em notícias e passo o dia todo angariando informações pela internet, pelos jornais e pela TV em busca da idéia que irá render a charge do dia seguinte. Por isso, se alguém quer ser chargista, é melhor não se ocupar apenas com o traço.
- Circulando: Como a gente pode conferir os trabalhos do Zé na rede?
- Zé da Silva: Além do site do DC (www.diario.com.br), também mantenho um blog: http://zedassilva.blog.uol.com.br.
- Circulando: Quais são os caras das tirinhas que você gosta?
- Zé da Silva: O Brasil tem vários caras geniais: Adão Iturrusgarai, Laerte, Angeli e Fernando Gonsalez são autores de tirinhas que fizeram a cabeça da minha geração.
- Circulando: Você tem algum personagem proibido, tipo gostaria de fazer mas não posso – vai chocar?
- Zé da Silva: Ah, isso a gente sempre tem... Só não vou revelar aqui, porque é proibido!
- Circulando: Como se aprende a fazer charge e a escrever roteiros?
- Zé da Silva: Escrevendo e lendo. E sempre desconfiando de que precisa melhorar ainda mais.
- Circulando: Qual deve ser o papel da charge e das idéias transmitidas por elas dentro de uma sociedade como a brasileira?
- Zé da Silva: Eu vejo a charge como uma crônica ilustrada do noticiário. Ela é um mecanismo por onde se pode dizer coisas que uma matéria imparcial ou até mesmo alguns tipos de colunistas não poderiam dizer – já que ela tem esse tom predominante humorado. Em algumas charges, onde coloco pessoas comuns como personagens, procuro também dar o tom do pensamento predominante da população sobre um assunto.
- Circulando: Qual foi a sensação e satisfação de escrever o livro sobre a história do Metropol – um dos ícones do futebol brasileiro esquecido? Deu pra eternizar novamente o nosso Metropol?
- Zé da Silva: O Metropol sempre fascina os amantes do futebol Brasil afora. Por isso, estamos preparando uma terceira edição do livro, junto do documentário que dirigi sobre o time. Tenho alguns amigos no Rio que trabalham com cinema e que já me sondaram para, quem sabe um dia, a gente fazer essa história virar filme. Mas a satisfação principal para mim foi dar valor aos heróis que participaram daquela história. Do patrono Dite Freitas ao mais humilde jogador, foram pessoas que se emocionaram ao ver que suas vidas mereciam, sim, serem contadas em livro
- Circulando: Você já fez charges que preferia não ter feito, ou que tenha se arrependido?
- Zé da Silva: Ah, sim. Temas relacionados a mortes de personalidades sempre geram retorno negativo. Muitos leitores não entendem que a charge também pode ser uma homenagem e escrevem achando que eu fiz um deboche. O brasileiro é emotivo, embora não seja muito bom para interpretar textos e charges, às vezes...
- Circulando: Qual foi a notícia que mais lhe deixou encabulado para comentar?
- Zé da Silva: A enchente que aconteceu no ano passado. É difícil para um chargista lidar com catástrofes.
- Circulando: Houve alguma vez em que a vítima da charge, te procurou para protestar, te processou ou algo parecido...???
- Zé da Silva: Geralmente, quem reclama está ligado a um time, a um partido, a uma entidade “vítima” da charge. São comprometidos e acham que estão fazendo algo sagrado, que não pode ser atingido. Lembro que, na última eleição para presidente, tanto os defensores do Lula como os do Alckmin se disseram perseguidos por mim. Ora, se os dois lados reclamam, é porque sou imparcial, certo?
- Circulando: Qual o melhor cartunista brasileiro atual na sua opinião?
- Zé da Silva: No que se refere a charges políticas diárias, o melhor é Angeli, da “Folha de São Paulo”. Ele é quem desenha diferente e pensa diferente da maioria da manada.
- Circulando: Além de desenhar, você escreve... tem mais projetos em áreas diferentes do jornalismo vindo por aí?
- Zé da Silva: Meu trabalho na TV é na dramaturgia, área diferente do jornalismo. Penso ampliar isso para o teatro e para o cinema, num futuro próximo.
- Circulando: Você gosta de quadrinhos eróticos?
- Zé da Silva: Gosto, e até já produzi coisas nessa linha. Durante três anos, publiquei uma página de quadrinhos eróticos na revista “Premium”, lançada pela mesma editora da revista “Sexy”. Tem algumas historinhas dessas no meu blog. Mas tire as crianças do lado do computador, antes de acessar isso...
- Circulando: O que você acha das vinhetas produzidas por chargistas para a Globo?
- Zé da Silva: Eu já fiz essas vinhetas nos anos de 2002, 2005 e 2006. É um bom espaço para divulgar o trabalho dos cartunistas. Mas em 2008 eles pararam com isso, agora é só o “plim-plim” mesmo.
- Circulando: Qual o recado para esta turma arteira do Circulando que está conhecendo um pouco mais do Zé Dassilva do DC e da Globo e que aqui da terrinha para continuar a caminhada em busca de seus objetivos?
- Zé da Silva: O artista plástico Andy Wharol dizia que “não existe um Michelangelo em Pittsburg”. A comparação se aplicava à cidade natal dele, que não tinha grandes expressões nacionais dentro da área em que trabalhava. Só se consegue produzir textos e desenhos em regiões onde haja maior mercado para essas atividades. Por isso, meu conselho é sair de Criciúma – mas nunca deixar Criciúma sair de você!